Uma crónica às Segundas
O maior passo da humanidade
Nascimento do Passo, gênio das 70 e tantas mungangas do frevo, que me desculpe; os velhos e bons b-boys, idem ibidem; os mestre dos baques solto e virado que me perdoem; Elvis, pomba-gira da pele branca, negocie; Fred Astaire, qualé, não se revire no desenho pontilhado dos seus respeitáveis sete palmos; funkadeliks forever, Chicago e Belém com as suas aparelhagens, samba, samba, samba, candomblé, os deuses que dançam, a todos o meu respeito e o sangue sem mertiolate dos meus joelhos...
Mas, na boa, o maior passo da humanidade se deu quando o primeiro negro pisou na lua: salve Michael Jackson, um, dois, espírito a três passos do chão, me encoxe, wanna take you on a moonwalk...
Ele vai pagar a vida inteira por ter sido maior que Armstrong e sua gangue, por ter fincado a bandeira da sua tara acima de todos os musicais de todas as tendências... Wanna take you on a magic carpet ride…
Salve os bois bumbás, os tchans, o samba duro, as lias de itamaracás, a ciência sob o calçamento do mangue, a fulerage, a macumba da japonega, mas, peraí, ninguém levitou tão bonito quanto esse rapaz!
Forever my love, you'll be mine. A lua, esse conhaque, o passo da humanidade, comovido com alma perra e carapuça de jabá-pop à vera.
Eu sei, ele perdeu o nariz original como o carinha do barbeiro de Gogol, mas pouco importa, nao o diminui como o primeiro negro a pisar a areia movediça da lua.
A América nunca vai perdoar o seu primeiro negro mais leve que as folhas das folhas da relva, coitada d´América...
Ninguém, nem o mais mungangueiro dos artistas populares, nem os comedores de vidros, ninguém sob a lona do nosso Soleil, ninguém no farol, ninguém no sinal... Nunca houve um passo tão lindo, ajoelhe e reze sr. Balé clássico, bata palmas, morra de inveja, gaste a arrogância das sapatilhas...
Nunca houve um passo como moonwalk, nunca houve mais linda invasão à lua dos doidos varridos, Michael Jackson nunca caiu nesse agá minúsculo, pra enganar moça, ora direis, de pisar nos astros distraído.
Ele andou palmos acima, seu mar vermelho, tábuas sagradas, Moisés da hora, por entre as nuvens do auto-engano, por entre os dez mandamentos, a terra é azul.... e ele, marcha à ré, se move.
Estátua!
Stop.
Parou ele ou parou o pop?
Autor: Xico Sá
10:38 | | 0 Comments
musica:
Retrato em Branco e Preto
Já conheço os passos dessa estrada,
sei que não vai dar em nada,
seus segredos sei de cor.
Já conheço as pedras do caminho
e sei também que ali sozinho
eu vou ficar tanto pior.
O que é que eu posso contra o encanto
desse amor que eu nego tanto,
evito tanto e que no entanto
volta sempre a enfeitiçar.
Com seus mesmos tristes velhos fatos
que num álbum de retratos
eu teimo em colecionar.
Lá vou eu de novo, como um tolo,
procurar o desconsolo
que cansei de conhecer.
Novos dias tristes, noites claras,
versos, cartas, minha cara
ainda volto a te escrever pra te dizer
que isso é pecado.
Eu trago o peito tão marcado
de lembranças do passado
e você sabe a razão.
Vou colecionar mais um soneto,
outro retrato em branco e preto
a maltratar meu coração.
Autor: Tom Jobim
10:39 | | 0 Comments
Uma crónica às Segundas
Quando as mulheres acordam
Impagável uma mulher quando acorda. Nada mais lindo e misterioso do que uma mulher acordando. Do que uma mulher antes das 10h da manhã, como uma vez vi umas fotos num livro de arte inglês, pelo que me lembro ou sonho. Uma mulher e suas verdades nos olhinhos que se espantam com o mundo como uma criatura que acaba de sair do útero, o maior dos sustos, o maior dos assombros da existência.
Umas têm um mau humor tremendo, meu Deus, te deixam acuado, são capazes de te xingar, espezinhar, te maldizer, para depois te amar ainda mais.
Outras acordam paranóicas com os cabelos, tenham caracóis, segredos, ou sejam lisos, loiros ou negros. Ainda mais se for no começo do amor, do caso, do namoro, do ensaio de casamento. Estas nos deixam na cama e correm para o espelho. Tudo por uma rápida conferência de Narciso. Se acham que estão "horríveis", naquele jeito, como naquele hiperbólico julgamento, dote tão feminino, te abandonam por horas no banheiro... E voltam as mais lindas desse mundo.
Existem aquelas que não estão nem ai, estas são raras, acordam e te presenteiam com aquele sorriso, como se tivessem sonhado com a possibilidade do nirvana ao teu lado, cria da tua costela, como canta o outro Chico, uma beleza de menina!
Os mistérios de uma mulher quando acorda são muitos.
Umas simplesmente silenciam, no máximo um monossílabo, isso quando são, por alguma razão, indagadas. Elas têm dúvidas, ainda não sabem se amam ou não amam, elas ainda guardam velhas heranças amorosas, tudo bem, coisas da vida.
Algumas acordam assustadas, como se dissessem, "que besteira eu fiz, nunca mais eu bebo".
Outros te mandam embora antes da aurora, para dormir o sono dos justos, o sono que livra de pesos na consciência e possíveis laços imediatos. Certíssimas.
Adoráveis aquelas que mantêm a posição de "conchinha", embora os motores da cidade já ronquem, apesar de todos os despertadores, todos os celulares. Estão são plácidas, jamais submissas.
Existem aquelas que acordam e põem logo uma música, uma música de acordo com o clima. Se tem sol, rock'n'roll, se faz frio, jazz, algo cool... Se o dia está cinza, toca aquela, que diz assim, como não quer nada, uma porrada, "ah insensatez, que você fez, coração mais sem cuidado...".
Nada mais lindo e misterioso do que uma mulher acordando, seus gestos, a dramaturgia, o arranque para a vida ou a inércia nos teus braços.
Os barulhos de uma mulher acordando, a música dos ossos se espreguiçando, os gerúndios tantos das ações e silêncios, o chuveiro ao longe a nos dizer tantos desejos e coisas, meu Deus, aquela água já escorre linda e faz pocinhas líricas nas saboneteiras...
Quantas dúvidas e quantas certezas acordam juntas quando uma mulher acorda.
Autor: Xico Sá
14:24 | | 0 Comments
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